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Aquilo que é e aquilo que se gostaria que fosse

Esta série de breves reflexões sobre a formação das convicções intelectuais
pretende estabelecer bases sólidas para que você compreenda melhor como a
mente humana estrutura o pensamento, assim como se aperceba dos truques,
conscientes ou inconscientes, de que o ser humano se vale para fazer valer a sua
visão de mundo. A ideia é que você, tornando-se consciente desse processo, não
seja mais manipulado em debates orais ou escritos, podendo formar uma visão
mais clara da realidade que o cerca.

Já examinamos, em dois outros textos (Cuidado com a lógica e Debate), como a
pura lógica não pode servir de bússola adequada para avaliar uma ideia, assim
como os vários recursos heurísticos que permitem a um interlocutor mais hábil e
astuto fazer valer as suas ideias tão somente por meio de manobras intelectuais e
comportamentais, mas não pelo valor delas mesmas.

Decerto, você há de estar pensando no quanto há de manipulação intelectual no
mundo em que vivemos. Mas será que você também não manipula a si mesmo ?
Antes de refutar veementemente essa minha sugestão, permita-me explicá-la
melhor : você já se indagou como se dá o seu próprio processo de intelecção
racional? Será mesmo que você é sempre sincero consigo mesmo ao formar uma
convicção?

Dentre os muitos exemplos que poderiam ser usados para aclarar essa noção,
lançarei mão de um dos mais evidentes : ao elaborar uma opinião sobre o que quer
que seja, você consegue diferenciar aquilo que as coisas são daquilo que você
gostaria que elas fossem ?

Quantas vezes, todos nós, ao expormos nosso ponto de vista sobre um
determinado tema, pulamos a indispensável etapa consistente em verificar aquilo
que é, o que se tem como certo a seu respeito, mas passamos a defini-lo de
acordo com o que entendemos mais adequado ? Se a sua autorreflexão for
sincera, você concordará comigo que isso se dá inúmeras vezes.
Por exemplo, acerca de um determinado posicionamento político que você
pretenda criticar, é possível fazê-lo de duas maneiras. A primeira delas, mais
comum, mas nitidamente distorcida, consiste em partir de premissas tidas como

reais, mas que não passam da sua visão de como as coisas deveriam ser. A
segunda, mais rara e honesta, parte do que as coisas são, sem recursos
cosméticos, passa à apresentação de como as coisas deveriam ser, segundo o
seu ponto de vista, findando na conclusão resultante do confronto entre o que
podemos chamar de ser e de dever ser.

Essas duas abordagens parecem-lhe muito semelhantes ? De fato, elas podem
passar essa impressão, mas não são idênticas. Por isso mesmo, vou deixá-lo,
agora, refletir sobre essas sutilezas, pois descortinar tais processos intelectivos tão
delicados não é tarefa a se fazer de modo apressado.

Dr. Aluísio Beresowski